Vivemos numa sociedade em que falar sobre a morte é
algo bastante complexo uma vez que isso remete diretamente
às situações de perda. Sem contar que embora ela, a
morte, seja a única certeza que temos na vida, vivemos
como se fôssemos imortais, confirmando assim esse grande
paradoxo que reflete a negação de nossa finitude. Porém,
relacionar a palavra morte apenas à ausência de vida
pode ser um equívoco já que existem também outros tipos
de morte e que estão presentes ao longo de nossa existência
quer percebamos isso ou não. Assim, precisamos “aprender
a morrer” todos os dias. E isso significa perceber que,
deste ponto de vista, a morte nada mais é do que uma
transformação, uma passagem para algo novo que está
por vir.
Ao
olhar para os processos da Natureza, fica fácil compreender
e até mesmo aceitar tudo isso com mais naturalidade
– afinal, parece bastante óbvio, por exemplo, que para
a planta brotar, a semente tem que deixar de existir;
para a borboleta existir, a lagarta tem que morrer...
Mas, e quando se trata das perdas da vida, da nossa
vida, por que será que para algumas pessoas é tão difícil
e doloroso passar por tais processos? Um filho que se
casa e sai de casa, uma situação inesperada de desemprego,
um casamento que se acaba, uma mudança de cidade, um
amigo que viaja, uma reprovação de vestibular, um objeto
valioso que se perde, enfim, são muitas as perdas que
podem ser citadas. Talvez a grande dificuldade esteja
diretamente relacionada ao apego a determinados papéis
que vamos construindo e assumindo no decorrer da vida.
Papéis esses que não se restringem à totalidade do nosso
ser, mas sim apenas à parte do que somos.
Estamos
habituados, no corre-corre dos tempos atuais, a nos
identificarmos muito mais com o que temos do que com
quem somos. Também, pudera, é pressão por todos os lados
e só pra citar um exemplo temos a mídia que nos força
a associar o tempo todo a felicidade com um consumismo
exagerado, e, quando menos esperamos, lá estamos nós
acreditando que somos o que temos. Mas, não somos somente
o que estamos habituados a pensar que temos. Somos muito
mais que isso... Desempenhamos vários papéis e nos identificamos
mais ou menos com alguns deles, porém podemos ser o
que quisermos, independente do que temos ou de onde
estivermos.
Embora
não haja uma receita pronta que nos ensine a lidar com
as perdas da vida, refletir como estamos vivenciando
esses processos por si só já é algo positivo, pois possibilita
o exercício de novas percepções, novos olhares e de
sermos mais criativos – ao ponto de podermos dar valor
às pessoas que ainda estão conosco, cuidar dos entes
queridos em vida, do nosso trabalho, dos afazeres diários
e das coisas simples da nossa existência. Isso pode
auxiliar no enfrentamento dessas situações ao ponto
de até conseguirmos dar mais atenção ao novo que está
por vir, ao invés de nos mantermos agarrados ao que
não mais existe.
Por Ana Eliza de Castro
Psicóloga
Membro do Laboratório de Estudos,
Pesquisa e Intervenção em Luto e
Humanização da UFRN